20 • Palácio da Regaleira, 003, 004 • Sintra, (Port.) • Arquit.-decor. : Luigi Manini, 1910 • (Fotos 2011)

Como um negativo

Neste cenário de Luigi Manini, palco de um teatro barroco levado ao extremo, graças à extensão da propriedade em que está encerrado, o artista pôde trabalhar tanto com o espaço quanto com a profundidade da colina. Muitas grutas, passagens subterrâneas, escadas mergulhando em espiral num túnel que desemboca cinquenta metros adiante, parecem celebrar sombras mágicas que lançam mão de uma tradição bem estabelecida da história dos jardins. Esta parte maldita e recorrente oferece, por contraste, a multiplicidade de uma matéria mineral moldada e burilada para atiçar uma ideia do maravilhoso. Se não conheciam os mecanismos da reprodução do mundo vivo e o fascínio exercido pela riqueza dos sistemas radiculares, os arquitetos de jardins sempre foram atraídos pelas profundezas. Como uma chamada por contraste ao crescimento do mundo vegetal, uma última tentativa de aproximar-se da essência.
Nessa perspectiva exploratória, Manini nos remete, como um negativo da mesma matéria, a uma alegoria esguia e aérea que parece proteger com sua presença aquela Quinta única cuja riqueza técnica atiça a cobiça de muitos decoradores contemporâneos.